Senac

Rio Grande do Sul

Artigo

Consumo, uso e descarte consciente

por Helena Mrozinski - Mestre em Design e docente da Moda

Com os alertas constantes sobre as consequências trágicas provocadas pela poluição ambiental e o empenho em torno da sustentabilidade ampla, está ocorrendo, aos poucos, uma mudança comportamental nos consumidores, que estão cada vez mais perceptíveis aos acontecimentos, principalmente pela facilidade de obter informações sobre tudo que está ocorrendo em escala global. Os hábitos cotidianos de muitos estão sendo repensados, assim como está crescendo a preocupação com uma vida mais saudável, ocasionando a mudança de hábitos alimentares, além da maior atenção à preservação da natureza, e à redução da poluição dos rios.

Nesse contexto, muitos autores já trabalham conceitos e anunciam alertas. Por exemplo, os autores Penna (1999), Denardin e De Carli (2012) advertem que, para o consumo consciente, o significado da sustentabilidade também deve ser aplicado na hora da compra de um produto, pois o consumidor deve estar atento: à procedência ou origem do mesmo; ao respeito dado pela marca que deseja consumir à legislação trabalhista, não fazendo uso de trabalho escravo; ao respeito dado pela mesma à comunidade e ambiente. Os autores citados alertam, também, para o consumismo desenfreado, sem preocupação com as consequências que esse ato impõe para a sociedade e para o futuro do planeta, cada vez mais devastado e agredido pela grande demanda e pela cultura do consumo acelerada.

Por outro lado, Lazzarini e Gunn (2002), Mattar (2009), Denardin e De Carli (2012) também observam que é necessária uma mudança no estilo de vida, levando em consideração não só o que se consome, mas também o quanto se consome, privilegiando a qualidade de vida baseada no atendimento das necessidades básicas, voltada mais para os aspectos culturais e espirituais, e menos para aspectos materiais. É nesse sentido que os consumidores do mundo todo estão começando a mudar, questionando e lutando pelos seus direitos, visto que estão mais conscientes de que as empresas podem ser consideradas como agentes sociais. Mais empresas, nesse contexto, reconhecem a oportunidade de adotar a responsabilidade social como estratégia, acrescentando valor para os negócios e ao mesmo tempo benefícios para a sociedade.

Na visão de Lipovestky (2005), na década de 1980, os consumidores distinguiam o produto pelo valor da marca ou por quem ele foi criado. Em constrate, atualmente os consumidores recebem um maior número de informações, tornando-os mais exigentes e fazendo com que reflitam mais na decisão de comprar. “Em outros tempos, as aquisições estavam focadas na ascensão social e hoje está pautada na busca da felicidade, longevidade e troca de experiências” (REFOSCO, 2012, p.51).

De acordo com Manzini e Vezzoli;

Um produto que é mais durável que o outro, exercendo a mesma função, determina geralmente um impacto ambiental menor; se um produto dura menos, ele de fato não só gera precocemente mais lixo, mas determina também outros impactos indiretos, como a necessidade de ter que substituí-lo (2005, p.182),

No cenário que se anuncia de desmaterialização, no caminho inverso do hiper- consumismo, o designer consciente deve projetar com princípios ecológicos e sustentáveis, disseminando a responsabilidade e o bom senso nos produtos, diminuindo, dessa forma, os impactos nocivos ao ambiente.

Desde 1920 que os fabricantes e os seus designers industriais se habituaram a vender o “desejo” e a “insatisfação” através da manipulação do estilo onde a “luxúria” inicial atribuída aos objetos passava rapidamente para um desencanto subsequente. Durante muitos anos, os valores materialistas que originaram a obsolescência enfatizaram o bem-estar dos indivíduos, mas a partir da década de 90, a procura de certos bens começou a declinar. As pessoas tornaram-se mais conscientes da insatisfação implantada nos bens de consumo desperdiçando menos dinheiro em tempos difíceis (PAPANEK, 1995, p.160).

O Instituto Akatu, uma organização não governamental que tem como missão a educação para um consumo consciente, criou uma cartilha com 12 princípios norteadores para o consumo consciente. Entre eles estão: consumir apenas o necessário, planejar as compras e avaliar o impacto do consumo, levando em consideração o ambiente e a sociedade na hora de fazer escolhas.

Em um mundo em transformação, o consumo exagerado começa a tomar uma nova postura, e, ao seu encontro, surgem novas propostas de design, com o ciclo de vida mais longo para os produtos, assim como movimentos educacionais conscientizando para um consumo responsável. Essa nova classe de indivíduos focadas nos valores da sustentabilidade, que, conforme Rech e Souza (2008, p.14), se denomina "Life Style of Health and Sustainability" ou LOHAS [Estilo de Vida Saudável e Sustentável], tem como filosofia de vida priorizar a união entre o corpo e espírito. São indivíduos ativamente envolvidos em causas sociais, direcionando conscientemente sua forma de viver e seus valores, inclusive nos produtos que adquirem e consomem.

Com o engajamento do novo estilo de vida do consumidor mais preocupado com os problemas da humanidade e com a adoção dos valores éticos através dos seus atos de consumo, a indústria da moda deve estar atenta a esse novo cenário e acompanhar a evolução dos processos produtivos, com responsabilidade ambiental. Dessa forma, poderá contribuir para a promoção do desenvolvimento sustentável com seus produtos de moda, e, ao mesmo tempo, transmitir sua preocupação com as gerações futuras e a preservação do planeta (SCHULTE, LOPES, 2008).

É primordial, portanto, que haja uma perfeita sintonia entre o consumidor e o produto, onde o objetivo de um seja o resultado de outro, validando esse novo padrão de consumo. Isso porque o consumidor consciente verifica tanto os desperdícios em todas suas práticas diárias como fica atento a todos os outros pormenores. Também seleciona produtos menos tóxicos na hora da compra, privilegiando as marcas que investem na preservação ambiental, ficando atento ao rótulo dos produtos de modo a verificar se possuem algum tipo de certificação, procurando saber a origem e a forma como são produzidos. Esse consumidor não consome menos necessariamente, mas de uma forma diferente, não dando muita importância aos aspectos tais como: “descartabilidade”, obsolescência e simples redução do consumo, mas valorizando os aspectos como a reciclagem, a utilização de energias limpas, a redução dos desperdícios e o desenvolvimento do mercado verde (PORTILHO, 2005; REFOSCO, 2012).

Por todos esses motivos, o produto de moda mais ecológica é considerado o grande desafio deste século XXI. Com os valores e questionamentos dos consumidores entrando em evidencia, novos caminhos para o consumo de produtos de moda são requeridos. Por um lado, cabe às empresas, com foco no novo consumidor consciente ? o qual prima por um estilo de vida mais saudável e tem como expectativa o menor impacto no meio ambiente e sua própria existência ? prover produtos de qualidade e com características multifuncionais, além de mesclar peças vintage com as de última tendência. Por outro lado, cabe aos consumidores a adoção de novas atitudes, desde as pequenas, como as de usar sua própria ecobag em suas compras, substituindo as sacolas plásticas comuns, e analisar a composição dos artigos antes de comprá-los, dando prioridade aos produtos ecofriendly ou amigáveis com relação ao meio ambiente. Essas atitudes irão contribuir para a mudança que levará ao consumo cada vez mais consciente (REFOSCO, 2012).

Apesar do número de consumidores adeptos da moda consciente ainda ser diminuto, a forma de pensar em relação aos reflexos causados ao meio ambiente está mudando progressivamente e significativamente. A expectativa de muitos é de que, em um curto prazo de tempo, os próprios consumidores farão exigências e buscarão consumir produtos ecologicamente sustentáveis, obrigando as indústrias a adaptarem-se à nova realidade para garantir a sua sobrevivência e a do planeta.

Referências

DENARDIN, Karoline S. Sustentabilidade na moda: casos de reaproveitamento e economia solidária. In. DE CALI, Ana M.S.; VENZON, Bernardete L.S. Moda sustentabilidade e emergências. (Orgs.) Caxias do Sul, RS:Educs,2012. P.157-170.

LAZZARINI, M.; GUNN, L. Consumo sustentável. In BORN,R.H.(coord). Diálogos entre as esferas global e local: contribuições de organizações não governamentais e movimentos sociais brasileiros para a sustentabilidade, equidade e democracia planetária. São Paulo: Petrópolis, 2002.p.67-86.

LIPOVETSKY, Gilles. O luxo esterno: a idade do sagrado ao tempo das marcas. São Paulo. Companhia das Letras, 2005.

 MANZINI, Ezio; VEZZOLI, Carlo.  O desenvolvimento de produtos sustentáveis: os requisitos ambientais dos produtos industriais. São Paulo: Editora EDUSP, 2005.

PAPANEK, Victor.  Arquitetura e Design: Ecologia e Ética. Edições 70. Lisboa, Portugal, 1995.

PENNA, Carlos Gabaglia. O estado do planeta: sociedade de Consumo e degradação ambiental. Rio de Janeiro: Record, 1999.

PORTILHO, Fátima. Sustentabilidade ambiental, consumo e cidadania. São Paulo: Cortez, 2005.255p.

RECH, S. R.; SOUZA, R.; Rodrigues, K. (2009) Ecoluxo e Sustentabilidade: um novo comportamento do consumidor. XIX Seminário de Iniciação Científica, CEART, UDESC. Florianópilis, Brasil. Disponível em:<www.coloquiomoda.com.br/.../103392_A_moda_atraves_do_respeito.pdf)> Acesso em: 15 set. 2015.

 REFOSCO, Ereany Cristina. Estudo do ciclo de vida dos produtos têxteis um contribuito para a sustentabilidade na moda. Tese de Mestrado. Design e Marketing Área de Especialização: Têxteis de Moda. Universidade do Minho Escola de Engenharia. 2012. Disponível em:< https://repositorium.sdum.uminho.pt/.../Tese%20-%20%20Ereany%20Re.> Acesso em 10 ago. 2015.

SCHULTE, N.; Lopes, L. Sustentabilidade ambiental: um desafio para a moda. Revista Moda Palavra, 2, p.30-42; 2009. Disponível em: < www.ecodesenvolvimento.org.br> Acesso em: 16 abr. 2015.

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