Senac

Rio Grande do Sul

Artigo

O sincretismo na mesa do Gaúcho

por Matheus Troglio - Docente de Gastronomia do Senac Caxias do Sul e Mestrando em História

No dia 23 de abril, comemora-se o dia de São Jorge, de acordo com a tradição, um santo guerreio e mártir, imortalizado montado em seu cavalo, portando uma lança, combatendo um dragão, representação simbólica dos inimigos de seus fiéis. Contudo, o Brasil é um povo sincrético, ou seja, funde várias crenças em uma só. O motivo é bem simples: somos um país onde a colonização e a formação do povo brasileiro provém de um grande processo de mestiçagem tendo como tripé formador o negro, o europeu e o indígena. 

 

Nesse processo sincrético, São Jorge também é reverenciado nas religiões de matriz africana, sendo atribuída a sua imagem ao Orixá Ogum. Uma explicação bastante plausível do motivo desse culto, podemos dizer assim, duplo, é que alguns escravos realizam mobilizações ou festividades junto a celebrações católicas para não serem perseguidos. Uma das hipóteses sugere que, pelo fato de os Orixás terem ligação com os elementos da natureza, e que geralmente são representados por pedras, os chamados Ocutás, buscavam-se imagens, de madeira, com o arquétipo de determinado Orixá, por exemplo, São Jorge e Ogum, ambos guerreiros. Então, fazia-se um orifício na parte de baixo da imagem e colocava-se o Ocutá dentro, de modo a cultuar seu deus sem levantar suspeitas. Muito provavelmente é daí que surge a expressão “Santo do Pau Oco”. (CORRÊA, 2016). 

 

É interessante destacar que ele é considerado o patrono de Caxias do Sul pela comunidade Umbandista, e, segundo Saul de Medeiros, somos o único município brasileiro com um local público que homenageia um babalorixá, onde também se encontra o monumento a Ogum, a Praça Lauro de Oxum, localizada na perimetral sul. Ogum é o Orixá do ferro, a divindade que ergue a espada e fábrica o ferro, transformando-o em instrumento de luta. É o padroeiro de todos os que manejam ferramentas, é o Orixá da tecnologia.

 

A ele é atribuído o churrasco, geralmente costela, servido com farofa e laranjas. Tradição que remonta à época da Revolução Farroupilha (1835-1845), prato absorvido da tradição gaúcha, que foi apropriada dos guaranis, catequizados por jesuítas no século XVII (LESSA, 1999). Os lanceiros negros, ao verem a carne ser assada em uma estaca de madeira, em seu imaginário mítico, viram a lança utilizada por Ogum. Antes das batalhas era comum a "comunhão" com este Orixá através do churrasco, de modo a garantir a proteção durante as batalhas.

Vale destacar que o que caracteriza o prato como sagrado é o rito, o ritual é que a faz a comida tomar a sua característica hierofânica. Sendo assim, nada impede de prepará-lo em casa. Entretanto, fora de um contexto ritual, o alimento acaba por se tornar um alimento cotidiano. Podemos dizer que se “Deus é brasileiro”, Ogum ou, se preferir, São Jorge, é gaúcho e, como todo sulino, gosta de uma costela salgada e assada em belo braseiro.

 *Artigo construído com o auxílio do babalorixá Jeferson da Cabloca Iansã

Referências:

CORRÊA, Norton F. O Batuque do Rio Grande do Sul: antropologia de uma religião afro-rio-grandense. 2ed. São Luiz: Cultura e Arte, 2016.

CORRÊA, Norton. “A COZINHA É A BASE DA RELIGIÃO”: a culinária ritual no batuque do rio grande do sul. Aba: Arquivos Brasileiros da Alimentação, São Luiz, v. 2, n. 1, p. 116-127, jan. 2017. Disponível em: < http://www.journals.ufrpe.br/index.php/ABA/article/view/1212#:~:text=O%20artigo%2 0aborda%20a%20comida,maioria%20de%20adeptos%20s%C3%A3o%20afrodescende ntes.&text=A%20polenta%2C%20de%20origem%20italiana,%C3%A9%20oferecida% 20ao%20orix%C3%A1%20Bar%C3%A1 >Acesso em: 29 mar. 2021.

ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. São Paulo: Martin Fontes, 2018.

LESSA, B.; LONA, A.A. et al. Do Pampa à Serra: Os sabores da terra gaúcha. Rio de Janeiro: Editora SENAC Nacional, 1999.

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