Senac

Rio Grande do Sul

Artigo

O Folclore na alimentação

por Matheus Trolgio - 1Mestrando em História e professor de Gastronomia na escola Senac Caxias do Sul

Para o dia do folclore, trago a luz dois ingredientes muito comuns do nosso estado para mostrar que nem sempre comer é apenas comer. Em primeiro lugar podemos entender folclore como manifestações da cultura popular de um povo. O folclore pode ser manifestado tanto de forma coletiva quanto individual, questões de cunho religioso, por exemplo, e reproduz os costumes e tradições de um povo, transmitidos de forma oral. Sendo assim, todos os elementos que são parte da cultura popular e que estão enraizados na tradição desse povo são parte do folclore.


As manifestações do folclore dão-se através de mitos, lendas, canções, danças, artesanatos, festas populares, alimentos, etc. Alimentos que segundo Câmara Cascudo, em seus estudos sobre o folclore brasileiro e a cultura da alimentação, percebesse um extremo simbolismo e misticismo em determinadas comidas, principalmente as que são de primeira necessidade. Dessa forma então podemos dizer que todas as comidas consideradas típicas, são representações folclóricas de determinada região.

Convém recordar que o primeiro povoamento branco do Rio Grande do Sul foi espanhol; seu poder e influência estenderam-se até depois da conquista das Missões; provém disso as velhas lendas rio-grandenses. Dessa forma a ingênua e confusa tradição guaranítica, a mescla cristã-árabe de abusões e misticismo, dos encantamentos e dos milagres, surgem, por exemplo, o boitatá, a lenda do chimarrão e a da mandioca.Com a entrada dos mamelucos paulistas, e outras expedições que vieram do centro e do norte do Brasil; o saci, o caapora, a iara surgem em nosso folclore. Por fim por influência dos lusitanos que aqui chegaram a do Negrinho do Pastoreio.

Contudo, vamos mostrar de maneira resumida duas lendas de alimentos símbolos, o primeiro do Brasil e o segundo uma bebida muito simbólica para nosso estado, que tem histórias muito parecidas e com raízes no imaginário indígena. Começando pela então chamada “Rainha do Brasil”, vamos falar sobre o mito da mandioca.

Assim como em todas as tradições orais, podemos encontrar algumas diferenças na narrativa, mas quase todas falam sobre Mani. Ela era uma linda indiazinha, neta de um grande cacique muito respeitado e admirado pela sua tribo. Garota muito esperta e especial, desde que nasceu andava e falava. Logo de maneira repentina ela dorme e não mais acorda. Deixando principalmente seu avô, mas toda tribo, muito abalados e tristes.

Assim a indiazinha como mandava a tradição da tribo, foi enterrada onde sempre havia morado, em sua oca. Dessa forma com o passar do tempo, os índios da aldeia que iam visitá-la e choravam sobre sua sepultura, perceberam que onde ela havia sido enterrada, começou a brotar uma planta até então desconhecida. Espantados os índios resolveram cavar para ver que planta era aquela, tiraram-na da terra e ao examinar sua raiz, viram que era marrom por fora e branca por dentro.

A levaram ao Pajé da tribo que pediu para que cozinhassem e comecem a raiz, dessa maneira entenderam que se tratava de um presente do Deus Tupã2. A raiz de Mani veio para saciar a fome da tribo. Em sua homenagem os índios deram o nome a raiz de Mani e como nasceu dentro de uma oca ficou Manioca, ou seja, casa de Mani, e que nós a chamamos de mandioca.
Nosso próximo alimento que surge de maneira mágico-religiosa é a erva-mate, conta a lenda que uma grande tribo guarani, devido à escassez de recursos precisavam encontrar outro lugar para morar onde a caça fosse farta e a terra fértil.

O povo migrou, mas sem perceber um velho índio que dormira tapado por couros ao acordar se viu só, e sem ninguém para o cuidar. Ao tentar procurar os outros surge das árvores uma bela e jovem índia. Ao olhar melhor, percebe que Yari sua filha mais nova, que ao ver que ele tinha ficado, voltou para cuida-lo, pois sozinho, o velho logo morreria.

Assim ficaram apenas os dois na aldeia praticamente abandonada. Uma tarde fria de inverno, o velho entretido colhendo frutas, se assusta ao ouvir barulhos no mato, achando ser uma onça o velho tenta se proteger, mas surge da mata um homem branco muito forte, de olhos cor do céu e vestido com roupas coloridas.

Apesar de ser um estranho, o velho se aproximou e o homem disse que vinha de muito longe, e se podia descansar e comer algo. O velho de maneira generosa, e mesmo sabendo que eram poucos os recursos, levou o homem até a sua oca onde sua filha estava e pede que ela faça algo para comer. Mesa posta, o homem come e dorme e então o velho e sua filha seguem para uma das ocas abandonadas e vão dormir.


Ao amanhecer o velho índio encontra o homem branco na frente da oca, e diz que descanse o tempo que achar necessário. Porem o homem branco responde que percebeu bondade em seus corações e mesmo não tendo muito a oferecer, o acolheram e lhe deram o pouco que tinham. O homem então sai a mata e volta com muitas caças e peixes.
Assim ele se revela enviado de Tupã, que estava preocupado com a saúde de ambos, e em agradecimento pela hospitalidade e bondade, o velho teria direito a um pedido. O pobre velho queria um amigo para lhe fazer companhia até o findar de seus dias, e assim deixasse de ser um fardo para sua filha, e que assim ela pudesse seguir com a tribo. O homem então o levou até uma erva estranha e diz:
— Esta é a erva-mate. Plante-a e deixa que ela cresça e faça-a multiplicar-se. Deve arrancar-lhe as folhas, fervê-las e tomar como chá. Suas forças se renovarão e poderá voltar a caçar e fazer o que quiser. Sua filha poderá então retornar a sua tribo.

Mesmo assim Yari resolveu jamais ficaria longe de seu pai. Ao ver sua dedicação e zelo, o enviado do tupã sorriu emocionado e disse:


— Por ser tão boa filha, a partir deste momento passará a ser conhecida como Caá-Yari, a deusa protetora dos ervais. Cuidará para que o mate jamais deixe de existir e fará com que os outros o conheçam e bebam de modo a serem fortes e felizes, e jamais se sentirem sozinhos.


Yari pergunta ao homem como ela longe das outras tribos, poderia cumprir sua tarefa, ele então sorri e vai embora. Passado algum tempo em uma tribo não muito distante dali os índios estavam contentes com a fartura das caçadas. Organizaram então uma grande festa, onde não faltava comida e muita bebida. Contudo, a bebida demais levou dois jovens índios a começaram a discutir e brigar. Tratava-se de Piraúna e Jaguaretê.

No calor do momento Jaguaretê empunha um tacape e bate na cabeça de Piraúna, matando-o. Jaguaretê foi então detido e amarrado ao poste das torturas. Pelas leis da tribo, os parentes do morto deveriam executar o assassino. Trouxeram imediatamente o pai de Piraúna para que ordenasse a execução. Muito consciente que a tragédia só aconteceu por estarem os jovens sob o efeito da bebida, liberou o Jaguaretê, que foi então expulso da tribo e foi buscar sua sorte na floresta.

O tempo passa e alguns índios daquela tribo, em busca de caça se aventuram na floresta fechada. No meio da floresta, encontram uma cabana e ao se aproximarem sai dela um homem muito forte e sorridente. Os jovens índios estranham, pois, apesar de aparentar ser jovem o índio tinha longos cabelos brancos. Após estranhamento o índio de cabelos brancos conta que é Jaguaretê, e lhes oferece uma bebida estranha a qual ele chama de mate.
Conta também que quando foi abandonado a sua sorte, muito andou e quando estava apertado de cansaço e tomado pelo remorso, jogou-se ao chão e pediu Tupã o levasse, foi então que uma linda jovem aparece e diz:
— Meu nome é Caá-Yari e sou a deusa dos ervais. Tenho pena de você, pois não matou por gosto e agora arrepende-se amargamente pelo que fez. Para suportar seu exílio, eis aqui uma bebida que o deixará forte e lhe esclarecerá as ideias.

 

Levou-o até uma estranha planta e voltou a dizer:
— Esta é a erva-mate. Cultive-a e a faça multiplicar. Depois prepare uma infusão com suas folhas e beba o chá. Seu corpo permanecerá forte e sua mente clara por muitos anos. Não deixe de transmitir a quem encontrar o que aprendeu com o mate.
Assim ele ordena que os jovens índios levem alguns pés de erva-mate e plantem em sua tribo. Então aqueles índios voltam e contam aos outros os que haviam acontecido. O mate foi plantado e multiplicou-se. Outras tribos apreenderam e foi desta forma que seu uso chegou até nós.

Dessa forma pode se dizer as pessoas tendem a ver seus alimentos mais básicos como algo divino, ou até mesmo mágicos, simbolismos esses que por vezes tornam o simples ato de comer, ou beber, em um ritual. Podemos observar isso em uma roda chimarrão onde a companhia das pessoas faz brotar os mais diversos assuntos, e que mesmo tomando ele sozinho podemos de certa forma sentir um calor no peito que nos dá, a sensação de não estarmos só. Por tanto volto ao início onde podemos novamente afirmar que comer, não é apenas comer.

 

Referencias:
"Mandioca - Lendas e Mitos" em Só História. Virtuous Tecnologia da Informação, 2009-2020. Consultado em 21/08/2020 às 15:57. Disponível na Internet em http://www.sohistoria.com.br/lendasemitos/mandioca/
CASCUDO, Luís da Câmara, A Geografia dos mitos Brasileiros. São Paulo: Global, 2012.
CASCUDO, Luís da Câmara, História da alimentação no Brasil. São Paulo: Global, 2004.
FRANCO, A. De caçador a gourmet: uma história da gastronomia. São Paulo: SENAC, 2010.
GATTO, Alcides. Erva mate. 1982. Coordenada por UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA. Pró-Reitoria de Extensão, Acadêmicos do Curso de Engenharia Florestal. Disponível em: http://www.paginadogaucho.com.br/chim/lind.htm. Acesso em: 21 ago. 2020.
MISSÕES, O Portal das (org.). Lenda Da Erva Mate Versão Indígena. Disponível em: https://www.portaldasmissoes.com.br/site/view/id/1551/lenda-da-erva-mate-versao-indigena.html. Acesso em: 21 ago. 2020.

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