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Rio Grande do Sul

Artigo

Os Ibeji

por Matheus Troglio - Gastronomia, mestrando em História

Entidades infantis, os Ibejis são geralmente simbolizados por duas crianças e representam a vida, a vitalidade, a saúde e a força, bem como a inocência e alegria infantil. Em algumas casas, são representadas por dois meninos. De maneira sintética, têm seus pares em São Cosme e Damião. Em outras casas, são representadas por um menino e uma menina, sendo que a menina representa Oxum moça, visando manter o dualismo da forma infantil (SILVA, 2017).

A importância das crianças nos é revelada no Itan1 , que conta que os dois gêmeos eram muito travessos e que haviam adquirido uma habilidade incrível de tocar tambor, presente esse recebido de sua madrinha Iemanjá. Nesse mesmo período mítico, a morte começou a se mostrar irritada e, por esse motivo, começou a matar todos os seres humanos muito antes de sua hora. A notícia chegou aos ouvidos dos irmãos percussionistas que, cansados de incomodar a vizinhança, resolveram importunar da morte. Assim, munidos de seus tambores mágicos, partiram em direção à trilha que levava até a morte.

Um deles foi à frente tocando seu tambor, enquanto o outro seguia escondido em meio à mata. A morte, ao ouvir o som do tambor, começou a dançar hipnotizada. O plano era que quando um irmão cansava o outro tomava seu lugar para continuar tocando. Por serem idênticos, a morte não percebia a troca e continuava a dançar. Tal dança correu durante dias e dias e a morte, cada vez mais cansada, pedia incessantemente para que a criança parasse de tocar, mas, mesmo assim, a criança não parou e continuaram a revezar o tambor e a deixar a morte cada vez mais cansada. Após muito implorar, a criança disse que só pararia de tocar se a morte parasse de matar as pessoas antes do tempo. A morte retrucou e então a criança ameaçou tocar para sempre, afinal de contas, a morte nunca morre. Após essa ameaça, a morte concordou com o acordo e, no instante em que o tambor parou de tocar, a morte caiu de cansaço. Essa foi a forma pela qual os Ibejis impediram a humanidade de ser extinta (FRANCHINI, 2015).

Por se tratarem de crianças, a elas são oferecidos pratos contendo doces e guloseimas para que assim essas crianças satisfeitas tragam o axé da energia e da força. Da mesma forma, os dois estão distribuídos a todos os presentes e a cada doce ofertado deve se pedir em troca saúde e alegria.

Em observação participante realizada no dia 04/09/2021 Ylê Iyá Axé Imolé Osupá em Caxias do Sul, foi constatado que após o toque de tambor para os Ibeji, cada Orixá em terra, pegou uma cesta com doces, e passou a distribuir, antes, porém, um cavalo montado pelo Orixá Iansã/Oya, começou a discursar sobre os doces e as crianças da festa, uma das frases que mais chamou a atenção foi que o doce distribuído não deveria ser comido, mas sim distribuído, e não só para as crianças, mas sim a todos, desde crianças aos velhos. E que aquele doce simbolizava a doçura e o amor dos Orixás a todas as pessoas do mundo, e assim ao espalhar os doces estaríamos nós a distribuir a doçura do Olorum a todas as pessoas.

A experiência gastronômica é considerada uma das melhores formas de intercâmbio cultural e uma grande oportunidade de exercitar aprendizado e respeito ao outro. A alimentação marca a identidade de um povo, seja com ingredientes, modos de preparo, tabus, técnicas ou temperos. Dessa forma, a gastronomia de terreira poderá formar um diálogo, de modo que podemos utilizar essa alimentação, além de propagar valores simbólicos e significados variados, como ferramenta comunicativa, sem julgamentos, sem preconceitos preexistentes, de modo a mostrar a cultura do “outro” (MONTANARRI, 2013). Buscamos, aqui, trazer um despertar para a culinária afrobrasileira, sua riqueza de sabores, saberes e simbologias. Bem como a inocência infantil, possamos olhar para as coisas com o olhar de criança, livre de julgamentos e preconceitos arraigados no racismo estrutural que permeia nossa sociedade.

 

REFERÊNCIAS

CORRÊA, Norton Figueiredo. “A cozinha é a base da religião”: a culinária ritual no batuque do rio grande do sul. Aba: Arquivos Brasileiros da Alimentação, São Luiz, v. 2, n. 1, p. 116- 127, jan. 2017. Disponível em: http://www.journals.ufrpe.br/index.php/ABA/article/view/1212#:~:text=O%20artigo%2 0aborda%20a%20comida,maioria%20de%20adeptos%20s%C3%A3o%20afrodescende ntes.&text=A%20polenta%2C%20de%20origem%20italiana,%C3%A9%20oferecida% 20ao%20orix%C3 %A1%20Bar%C3%A1. Acesso em: 28 nov. 2020.

CORRÊA, Norton Figueiredo. Batuque: uma religião afro-rio-grandense em oposição à cosmovisão cristã. Instituto Humanitas Unisinos, 12 jan. 2010. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/28848-batuque-uma-religiao-afro-rio-grandenseemoposicao-a-cosmovisao-crista-entrevista-especial-com-norton-figueiredo-correa. Acesso em: 26 out. 2020.

CORRÊA, Norton Figueiredo. O Batuque do Rio Grande do Sul: antropologia de uma religião afro-rio-grandense. 2. ed. São Luiz: Cultura e Arte, 2016.

FAGLIARI, G. S. Turismo e alimentação: análises introdutórias. São Paulo: Roca, 2005.

FARELLI, Maria Helena. Comida de santo. Rio de Janeiro: Pallas, 2008.

FRANCHINI, A. S.; SEGANFREDO, Carmen. As Melhores Histórias da Mitologia Africana. 3. ed. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2015.

MONTANARI, Massimo. A comida como cultura. 2. ed. São Paulo: Senac, 2013. 208 p

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