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Rio Grande do Sul

Artigo

Só boas pessoas são bons profissionais

por Gelson Cardoso - Professor do Senac São Leopoldo

No meio de uma aula como outra qualquer um aluno comenta sobre uma situação de discriminação que presenciou e espontaneamente iniciamos uma conversa sobre homofobia e a importância de respeitar as diferenças. Posições divergentes surgem e ânimos se exaltam, restabeleço a ordem e voltamos ao debate de ideias. Tudo dentro do esperado quando falamos de um tema polêmico. Aí algo inusitado acontece. Um dos alunos pede para falar e me diz “Professor, vamos voltar para a aula e parar de falar dessas coisas que só causam discussão. ” Acende-se a luz vermelha e paramos tudo para falar de algo fundamental. A formação cidadã é tão importante quanto a formação técnica.

Incorremos em um erro primário, esquecemos que o óbvio precisa ser dito. Por não deixarmos claro que é impossível ser um bom profissional sem ser uma boa pessoa, acabamos deixando crescer a ideia de que a formação técnica e a formação humana são coisas diferentes. E esse falso julgamento se repete também nos cursos superiores. É comum ouvir universitários reclamando que cadeiras como sociologia, filosofia, antropologia, fundamentos da realidade brasileira e cidadania são “caça níqueis”, disciplinas exigidas pelas universidades apenas com o objetivo de tirar mais dinheiro dos estudantes.

Então, vamos dizer o óbvio: o mercado é feito por pessoas, com pessoas e para pessoas. Se você não entende de gente, não entende de mercado. O conceito mais simplificado e difundido de marketing é: identificar e satisfazer necessidades e desejos. Ele não fala em maximizar lucros, excelência na qualidade ou inovação. Estes são objetivos secundários que serão postos como meta se, e apenas se, as pessoas envolvidas no processo precisarem e quiserem isso.

Como exercício, vamos imaginar o pior cenário possível. Façamos de conta que você é um daqueles empresários que é o vilão do filme, que odeia pessoas e que pensa apenas em lucro. Mesmo nesse caso, você precisaria se cercar de profissionais que gostam de pessoas. Não olhar para os indivíduos envolvidos no processo causa prejuízos e até mesmo a falência de organizações.

Um profissional que não respeita diferentes maneiras de pensar não sabe trabalhar em equipe, cria um ambiente desagradável e isso se reflete em queda de qualidade do resultado entregue pelos colaboradores. Ser refratário ao diferente também faz desse técnico alguém avesso à inovação e ele vai causar a estagnação da empresa. Ainda, em casos extremos, na competição exagerada entre colegas vemos profissionais sabotando o trabalho de outros sem se darem conta de que aquilo vai prejudicar todo o grupo. É a pior representação daquela analogia muito conhecida dos homens que ignoram o buraco no barco porque o furo é do lado do outro e, neste caso, eles mesmos furaram o casco.

Mas, continuemos no nosso exercício e imaginemos que você é um empresário realmente mau. Você não liga se seus funcionários estão satisfeitos, desde que eles desempenhem o trabalho para o qual são pagos. Então, nesse caso você precisa de pessoas ainda melhores que coloquem o benefício dos outros acima do seu próprio. Precisa de pessoas tão altruístas que estejam dispostas a trabalhar duro com o objetivo de entregar apenas o melhor para o cliente. Mas quem define o que é o melhor? Sim, pessoas. O produto ou serviço entregue deve ser o melhor de acordo com o julgamento do cliente. E somente o profissional que olha para o outro pode ver isso.

O mercado está cheio de exemplos de empresas que amargaram prejuízos gigantescos por se apaixonarem por seu produto e esquecerem de olhar primeiro para o cliente. A Kodak recebeu a proposta de fabricar máquinas fotográficas digitais muito antes das concorrentes e a rejeitou. Acreditavam que seu negócio era a produção de máquinas fotográficas analógicas de alta qualidade. Mas os clientes queriam maneiras mais simples de registrar suas memórias. A Sony tem um longo histórico de produtos que foram fracassos de vendas por serem bons demais. Eles ofereciam qualidade e tecnologia muito acima do que o cliente podia perceber como benefício. Embutiam no preço do produto um custo que o consumidor não estava disposto a pagar. A Motorolla perdeu espaço para a Nokia quando se apaixonou por seu produto e não viu que os clientes buscavam inovação. A própria Apple, sinônimo de inovação, deixou espaço para o crescimento dos concorrentes quando hesitou em lançar Iphones com telas grandes para não sacrificar a ergonomia. Se essas gigantes passaram por isso, imagine uma empresa de pequeno ou médio porte. Sim, olhar só para o seu produto e não para as pessoas pode quebrar o seu negócio.

Mas vamos exagerar mais ainda nosso exemplo, suponhamos que você realmente odeie pessoas. Ainda assim você precisará olhar para elas com carinho e tentar lhes oferecer algum benefício. Einstein disse certa vez que ele poderia inventar qualquer coisa, desde que pudesse vender. As pessoas só compram o que lhes traz satisfação. Você pode ser o melhor físico, químico ou médico e toda sua técnica será inútil se não se reverter em benefício para as pessoas. Mesmo um veterinário precisa entender que quem deve ficar satisfeito com o serviço oferecido é o tutor, o paciente por mais que demonstre gratidão não irá pagar a conta.

Dar formação técnica a uma pessoa que não teve uma boa formação humana é como dar ouro a um aborígene. Talvez ele use sobre a cabeça como enfeite e dance para que todos vejam como brilha, mas nunca terá a real noção da riqueza que possui.

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